Assinada por Brenda Caldas Venero, a Coleção ConVerso manifesta o papel do design autoral como agente de transformação na economia circular, provando que resíduos industriais podem ser elevados ao status de objeto de desejo. Apresentado à Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) como conclusão de curso em 2025, o Banco ConVerso foi o primeiro mobiliário originado desse estudo.
Além de materializar meses de pesquisa, estudo e experimentação, a peça foi premiada na categoria “Reutilizar” do 27º Prêmio Salão Design (modalidade estudante). E tem mais: rendeu a Brenda o título de Estudante Destaque da edição.
Parecer do júri: “A escolha reconhece a capacidade de articular consciência material e expressão estética. Ao combinar madeira de demolição com um compósito de resina e resíduos têxteis, o projeto demonstra atenção aos desafios contemporâneos do design, transformando de descartes em uma solução coerente, funcional e visualmente singular”.
ENTREVISTA
Natural do litoral da Bahia, por quase cinco anos foi violinista na Orquestra Pró-Sinfônica de Camaçari. Em 2018, mudou-se para o Rio de Janeiro e ingressou na UFRJ em 2021. Hoje com 24 anos, Brenda conta que escolher Design Industrial foi um caminho muito natural, já que sempre teve uma forte conexão com a arte. Designer de produto apaixonada por madeira e sustentabilidade, atua como designer júnior na Xilo e como assistente de comunicação na Parquet Nobre, duas empresas especializadas em madeira e que influenciam diretamente a identidade do que ela crio.
Conversamos com a Estudante Destaque do 27º Prêmio Salão Design para conhecer suas referências e os bastidores da criação do Banco ConVerso. Confira o bate-papo com Brenda Caldas Venero!
Quando surgiu o interesse pelo design moveleiro?
O interesse veio inicialmente de casa. Meu pai era marceneiro por hobby e passava o dia inventando peças. Juntos, fizemos desde banquinhos a poltronas. Após o falecimento dele, não dei continuidade, mas, ao entrar na Xilo, resgatei essa paixão pelo trabalho em madeira que ele havia estimulado em mim. Foi assim que decidi que o design de mobiliário seria o caminho que eu iria trilhar.
Quem são suas inspirações nesse segmento específico? Onde busca referências?
Admiro muito o trabalho dos designers com quem convivo diariamente na Xilo – um hub de design no Centro do Rio de Janeiro onde desenvolvemos projetos e colaboramos uns com os outros –, como Felipe Madeira, Philipe Fonseca, Thiago José Barros e Henrique Canella.
Também acompanho de perto o trabalho da Assimply Studio e da Monterraro, voltadas para design e sustentabilidade. Marina Moreira, Estúdio Carmine e Erik Bonissato (da Bonni Design) também estão entre as minhas referências favoritas. Além dessas conexões contemporâneas, busco constante inspiração nos ícones do modernismo brasileiro, como Geraldo de Barros, Lina Bo Bardi e Sergio Rodrigues. No geral, o design nacional é a minha grande fonte criativa!
Como conheceu o Prêmio Salão Design e por que decidiu participar do concurso?
Acompanho o Prêmio Salão Design há três edições por meio das redes sociais. Decidi inscrever meu projeto de graduação porque enxerguei na premiação uma grande oportunidade de dar visibilidade a um trabalho pelo qual tenho imenso carinho.
Como surgiu a ideia da coleção Converso e o que levou você a trabalhar com madeira de demolição e resíduos têxteis?
A coleção ConVerso nasceu durante a minha pesquisa de graduação. Enxerguei um imenso potencial na reutilização dos resíduos gerados pela indústria têxtil – afinal, são mais de 30 mil toneladas de roupas e tecidos descartados por ano apenas no Deserto do Atacama.
Diante do impacto da cultura do fast fashion e dos excessos do consumo, percebi o valor desses tecidos (que demandam tantos recursos naturais para serem produzidos) e decidi pesquisar uma forma de incorporá-los ao mobiliário. Desenvolvi, então, um material compósito e, após muitos testes e experimentações, cheguei a um resultado visual muito expressivo.
Cada peça desenvolvida adquire uma estética única, nenhuma fica idêntica à outra, e valorizo muito essa exclusividade do processo manual e artesanal. Sinto que o resultado transita entre o mobiliário funcional e a obra de arte, e eu adoro isso. A madeira de demolição veio como um complemento natural: eu queria utilizar madeira no projeto, e a matéria reaproveitada fazia todo sentido, devolvendo vida e utilidade a recursos que estavam destinados ao descarte.

O uso de materiais reaproveitados foi uma escolha desde o início ou foi se incorporando ao longo do processo de criação? E o que eles acrescentaram ao projeto que dificilmente seria alcançado com matérias-primas convencionais?
O uso de materiais reaproveitados foi uma escolha pensada desde o início. A ideia inicial era triturar o tecido para criar um compósito rígido, mas a estética que se revelou durante o processo me chamou tanta atenção que decidi trabalhar com o tecido inteiro. Foi assim que nasceu um material de identidade visual único.
Acredito que esse compósito agregou um valor que dificilmente conseguiríamos com matérias-primas convencionais. A melhor parte é a surpresa das pessoas ao perceberem que não se trata apenas de madeira, mas que há resíduo têxtil integrado ali. Reutilizar materiais descartados pela indústria para alcançar um resultado tão expressivo fez todo o processo valer a pena.
Ao desenvolver o produto, quais foram os principais desafios técnicos ou criativos relacionados ao reaproveitamento desses materiais?
O maior desafio técnico foi, sem dúvida, encontrar a proporção ideal entre o resíduo têxtil e o aglutinante, garantindo rigidez e segurança estrutural suficientes para o assento. Ao optar por criar um banco, a principal preocupação era assegurar a resistência ao peso de uma pessoa. Realizei diversos testes com o tecido inteiro, cortado e desfiado até atingir a estabilidade necessária para o Banco Converso. Também apliquei o compósito em objetos, como na Bandeja Converso, e pretendo expandir essa linha em breve.
Outro desafio foi a origem do material: por vir da indústria de tecidos decorativos, tratava-se de uma mescla de fibras naturais e sintéticas, o que exigiu um cuidado extra para que a reação com o aglutinante não comprometesse a resistência do compósito.

O júri destacou que o Banco Converso consegue transformar descartes em novas possibilidades estéticas. Como você enxerga a relação entre sustentabilidade e estética no design de móveis?
Acredito que é plenamente possível aliar sustentabilidade a uma estética atraente e autêntica. Estúdios como a Assimply e a Monterraro já provam isso no mercado: criam peças onde a beleza chama a atenção em um primeiro momento e, ao descobrir a procedência e a história do material, a percepção de valor se torna ainda mais fascinante. Quero continuar seguindo essa linguagem, pois valorizo a estética tanto quanto a função.
De que forma esse prêmio influencia os próximos passos da sua trajetória como designer?
A visibilidade proporcionada pelo prêmio é fundamental para impulsionar o início da minha carreira. O que mais valorizo são as conexões que venho construindo nesta fase; ver profissionais experientes entusiasmados com o meu trabalho, incentivando e abrindo portas para que eu continue criando, é algo muito emocionante. De onde venho, mulheres negras historicamente encontram poucas oportunidades, e sou extremamente grata por ver meu projeto e este prêmio abrindo novos caminhos.
Como acredita que sua geração pode contribuir para tornar o setor moveleiro mais sustentável?
Concluí a graduação no final de 2025 acompanhada de colegas desenvolvendo projetos brilhantes. Acredito profundamente no impacto da educação pública de qualidade; as universidades federais do país concentram pesquisas com potencial de transformar não apenas o setor moveleiro, mas também as áreas de embalagens, produtos de consumo e novos materiais.
No mercado privado o movimento é semelhante: a urgência climática tem exigido um olhar muito mais consciente sobre a cadeia produtiva, tanto no uso criterioso de matérias-primas quanto na responsabilidade com o descarte.
O que diria para estimular outros estudantes a participarem das próximas edições do Prêmio Salão Design?
Acreditem no potencial das suas ideias: desenvolvam, testem e inscrevam seus projetos no Prêmio Salão Design. É uma vitrine excepcional para projetar sua voz em toda a América Latina e, acima de tudo, um passo decisivo para começar a trajetória profissional!
Saiba disso: Brenda foi convidada para compor a exposição Brasil Behind Brazil na Design Week de Milão 2026, ao lado de outros designers brasileiros, por meio do Movimento Dexcolados, organizado por Philipe Fonseca, Thiago José Barros e Pedro Gallasso. Para essa exposição, ela desenvolveu o Centro de Mesa Converso, com o mesmo material compósito combinado ao aço.
SOBRE O PRÊMIO SALÃO DESIGN
Realizado desde 1988 pelo Sindicato das Indústrias do Mobiliário de Bento Gonçalves (Sindmóveis), o Prêmio Salão Design é a mais tradicional premiação latino-americana de design de mobiliário. Seu propósito é aproximar designers e indústrias, estimular a criatividade e a inovação e contribuir para tornar o setor moveleiro mais competitivo, inovador e sustentável. Ao longo de sua trajetória, já recebeu mais de 17 mil projetos de participantes de 39 países.
A 27ª edição conta com patrocínio master de Interprint e Duratex, patrocínio standard de Akeo e patrocínio especial de Renna, SCA e Todeschini. O Prêmio Especial Madeiras Alternativas tem apoio do Laboratório de Produtos Florestais do Serviço Florestal Brasileiro, enquanto o Prêmio Especial Design RS teve parceria com o Sebrae RS.